61º Festival de Cannes – Os festivais de cinema interessam a quem?

Começa hoje mais uma edição do “festival de cinema mais importante do mundo”. Esse epíteto é usado amplamente pela mídia que divulga e acompanha o tradicional festival que acontece anualmente na riviera francesa. Essa 61ª edição tem a obrigação de marcar os 40 anos passados desde maio de 68, mês símbolo de diversas manifestações políticas, culturais e sociais, que estouraram na França, mas também em outros países. Naquele ano o Festival de Cannes foi polemicamente interrompido e alguns filmes da competição nem chegaram a ser exibidos – alguns deles terão sessões especiais durante a edição presente.
Para muitos, o Festival de Cannes é o espaço para o “cinema de autor” (expressão que ganhou o mundo nos anos 60, a partir justamente da França e seus jovens críticos), mas isso ainda existe? Ou melhor, há realmente espaço para o “cinema de autor”? Quem pode ir ao Festival e ver esses filmes? Quais desses filmes chegam de fato ao público após receber aplausos e prêmios? Romanticamente, é possível encantar-se com a seleção de filmes do Festival e sonhar com a possibilidade de vê-los, talvez na Mostra Internacional de cinema (São Paulo), no Festival do Rio, ou ainda, em cartaz em algum cinema que ainda banque uma programação “alternativa”. É claro que me refiro aqui a filmes como “24 City” (Jia Zhang-ke), “My Magic” (Eric Khoo) ou ainda, “La Frontière de l’Aube” (Phillipe Garrel). Os “grandes” estão assegurados.
E quem abre a competição hoje é o brasileiro Fernando Meirelles e seu “Blindness”, baseado no livro do português José Saramago, “Ensaio Sobre a Cegueira”. Ao ler o livro eu pensava: como esse acontecimento será resolvido no cinema? Será que a atriz Julianne Moore vai se submeter a isso? Bom, parece que Meirelles enfrentou muitos problemas com o grau de violência que a história abarca e teve que reformular várias cenas, mas também parece que a ótima Julianne Moore se entregou pra valer. Ela é a esposa do médico (Mark Ruffalo), um dos primeiro a ser acometido pela cegueira repentina e inexplicada que ataca a população de um país indeterminado. O romance de Saramago subverte principalmente o provérbio que diz que em “terra de cego, quem tem um olho é rei”. A esposa do médico fica sozinha, ao lado do leitor, na primeira fila do espetáculo de perda de humanidade. E Meirelles não está sozinho. Outros brasileiros levam seus trabalhos ao festival francês. Walter Salles e Daniela Thomas apresentam “Linha de Passe” na competição oficial, Matheus Nachtergaele estréia na direção com “A Festa da Menina Morta” – exibido na mostra “Um Certo Olhar” – e ainda “O som e o Resto” de André Lavaquial também participa do festival.
Na competição oficial ainda há filmes de grandes diretores como Clint Eastwood, irmãos Dardenne, Atom Egoyan e Wim Wenders. Steven Soderbergh leva para o festival seu longo filme sobre Che Guevara, com Benício del Toro no papel-título. A Argentina também colocou dois filmes na seleção mais importante do festival: os dois trabalhos mais recentes dos ótimos Pablo Trapero e Lucrécia Martel. Cannes também verá uma homenagem ao centenário do realizador português Manoel de Oliveira e sessões especiais do novo filme de Woody Allen e da seqüência da série Indiana Jones. Emir Kusturica exibirá seu documentário sobre o polêmico jogador de futebol Maradona. Ah, a foto do cartaz é do mestre David Lynch, cuja filha Jennifer Lynch apresenta o filme “Surveillance”. O festival de Cannes vai até o dia 25 de maio.
Escrito por
Anderson Vitorino
às
10h12