
É impossível dissociar o cinema do cineasta russo Aleksandr Sokúrov (1951) da relação do homem com a História. Por mais que alguns filmes pereçam pessoais, subjetivos, a ambientação em certo tempo e espaço é sempre fundamental. Os filmes de Sokúrov nem sempre agradaram o governo russo, mas o diretor recebeu apoio de um mito de seu país – o cineasta Andrei Tarkóvski – e também de fundos cinematográficos europeus. Sokúrov estudou História e cinema e trabalhou na TV antes de realizar dezenas de documentários e ficções.
E por falar em Andrei Tarkóvski (“Solaris”, “Andrei Rublev”), vale lembrar que Sokúrov é herdeiro direto do mestre russo, pelo menos no que diz respeito à manipulação do tempo no cinema. Em “Arca Russa” (2002), por exemplo, Sokúrov leva o espectador numa viagem de poucos mais de 90 minutos, num plano único, pelo museu Hermitage. O que Hitchcock tentou fazer em “Trama Macabra” e não conseguiu por limitação técnica, Sokúrov realizou com a ajuda do suporte digital.
“O Sol” é a terceira parte de uma tetralogia sobre grandes ditadores da história contemporânea. Tudo começou com “Moloch” (1999), no qual Adolf Hitler é observado na intimidade com sua amante Eva Braun, única pessoa capaz de ouvi-lo e contradizê-lo. Depois foi a vez de flagrar um momento crítico do outrora vigoroso Lênin, em “Taurus” (2001). Caso o projeto inicial venha a se concretizar, o próximo e último filme será sobre Stálin.
Tóquio, 1945. O imperador japonês Hirohito, considerado um descendente direto do deus sol, está praticamente cercado dentro de seu bunker, enquanto a população japonesa amarga a tragédia e a humilhação do fim próximo da II Guerra Mundial. É nesse momento de angústia e queda que se localiza o filme de Sokúrov. O ator Issei Ogata interpreta um imperador completamente desconectado da realidade exterior e a câmera de Sokúrov capta com sofreguidão os hábitos rotineiros desse representante de um império fracassado que nunca mais seria o mesmo.
Em “O Sol”, Hirohito precisa aceitar a derrota e para isso precisa se destituir da aura divina. Sokúrov observa essa transformação nos mínimos detalhes e o espectador vê o sofrimento pelo que passa o imperador nesse desmantelamento de sua figura. A “visita” do general americano marca a entrada indiscriminada do mundo ocidental e sua cultura em território japonês. “O Sol” participou da seleção oficial do festival de Berlim de 2005 e foi exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
O Sol, de Aleksandr Sokurov   
(Solntse, RUS/ITA/SUI/FRA, 2005)
Com: Issei Ogata, Robert Dawson, Kaori Momoi, Shiri Samo
Escrito por
Anderson Vitorino
às
19h28
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Promoção O Banheiro do Papa – Resultado
A vencedora da promoção foi Kiyoko Kohatsu. Parabéns, Kiyoko! Depois deixe seu comentário sobre o filme aqui no blog.
Em breve, mais promoções.
Escrito por
Anderson Vitorino
às
15h14
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Para alguns um documentário, para outros uma ficção. A confusão de gêneros e a polêmica sempre estiveram ligadas às obras modernas e não poderia ser diferente com os trabalhos do brasileiro nascido na Itália em 1944, Andrea Tonacci. Ele veio para o país ainda na infância e se instalou em São Paulo, onde vive até hoje. A carreira cinematográfica teve início com curtas-metragens, como “Olho por Olho” (1965), e direção de fotografia em filmes de diretores já conhecidos, como Rogério Sganzerla.
Mas foi mesmo com o já mítico “Bang Bang” (1970) que Tonacci entrou para o grupo de diretores brasileiros e, com a licença da classificação, se tornou um dos mais importantes do Cinema Marginal (“movimento” basicamente paulista, das décadas de 60 e 70, que fazia cinema com pouquíssimo recurso financeiro e técnico).
Mais de 30 anos separam “Bang Bang” do trabalho mais recente, “Serras da Desordem” (2006). Tonacci não ficou parado durante todo esse tempo – deu aula, fez vídeos, mas o hiato é mais um indício de que o cinema desse realizador realmente não se atrela ao crescente comércio cinematográfico que se estabeleceu no Brasil a partir dos anos 90. É realmente difícil dissociar a figura de Tonacci da “Marginalidade”.
O tema indígena entrou na vida do diretor no final da década de 70 com as filmagens do documentário “Conversas do Maranhão” e outros projetos já nos anos 80. A idéia de “Serras da Desordem” apareceu pela primeira vez em 1993, mas as filmagens só começariam 10 anos depois.
De acordo com Tonacci, “Serras da Desordem” é seu segundo filme de ficção. Fica claro o posicionamento do diretor quanto ao poder de manipulação da imagem e ele leva essa experiência ao extremo na reconstituição que faz da vida do índio Carapirú – interpretado pelo próprio no filme. Planos longos, imagens sobrepostas e uso dramático do preto-e-branco em oposição, ou complemento, às cores, são alguns dos recursos de Tonacci para reencenar a trajetória de um índio pelo mundo selvagem dos “brancos”.
Serras da Desordem, de Andrea Tonacci   
(BRA, 2006)
Com: Carapirú, Tiramukõn, Camairú, Myhatxiá, Sydney Ferreira Possuelo, Luis Aires do Rego
Escrito por
Anderson Vitorino
às
15h11
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