
Esse é o segundo filme que resulta da parceria entre a diretora Laís Bodanzky e o roteirista – e também marido – Luiz Bolognesi. O primeiro trabalho foi o premiado “Bicho de Sete Cabeças” (2000) com Rodrigo Santoro no papel de um usuário de maconha que é internado pelo pai em um manicômio. Laís já dirigiu peças de teatro e também está à frente de projetos itinerantes de exibição de filmes.
A idéia e a vontade de realizar um filme sobre os bailes de salão são antigas. O casal visitou um baile certa vez e a impressão foi forte o suficiente para despertar a centelha de “Chega de Saudade”. Anos depois Laís e Bolognesi retomaram a idéia e aprofundaram a pesquisa em salões como o “Panelinha Baiana”, o “Cartola Clube” e o próprio “União Fraterna”, onde foi filmado o longa-metragem.
Assim como em “Bicho de Sete Cabeças”, o que mais importa em “Chega de Saudades” não são os acontecimentos em si, mas o que se passa no interior dos personagens em decorrência dos fatos. Nos moldes de “Short Cuts – Cenas da Vida”, de Robert Altman, Laís Bodanzky entrelaça a vida de vários protagonistas numa noite de baile. E o filme ainda dialoga com o que seria uma narrativa em tempo real.
Os personagens de “Chega de Saudade” são o maior destaque do filme, tanto pela complexidade humana que representam quanto pelos ótimos intérpretes escalados no elenco: Tônia Carrero, Leonardo Villar, Betty Faria, Cássia Kiss, Stepan Nercessian e os jovens Maria Flor e Paulo Vilhena. A multiplicidade de sentimentos, temperamentos e memória se espalham pelo salão, nos rostos, nos corpos e olhares dos atores que dão vida aos freqüentadores assíduos dos bailes da terceira idade.
O filme traz os personagens maduros para o centro da trama. E isso acontece de uma forma carinhosa, mas sem protecionismo. As rugas estão à mostra, assim como penteados bem cuidados, roupas decotadas e maquiagem. Não há oposição entre desejo e idade avançada para quem procura diversão e companhia nos bailes. A jovem personagem de Maria Flor está lá para provar que não é a idade que determina a capacidade de se divertir e amar.
A equipe técnica do filme é exemplar. Walter Carvalho emprega uma mobilidade incrível à sua criativa fotografia para acompanhar os passos de dança e a movimentação dos personagens dentro do salão. Direção de arte e figurino cuidadosos ao extremo conseguiram recriar o universo correto. Além disso, a banda que anima o baile é comandada por ninguém menos que Elza Soares ao lado do músico e compositor Markus Ribas.
Chega de Saudade, de Laís Bodanzky 


(Idem, Brasil, 2008)
Com: Tônia Carrero, Leonardo Villar, Maria Flor, Cássia Kiss, Paulo Vilhena, Betty Faria
Escrito por
Anderson Vitorino
às
15h15