
O romance de estréia do médico afegão imigrado para os EUA Khaled Hosseini, lançado em 2003, teve logo seus direitos adquiridos para virar filme. O livro “O Caçador de Pipas” chegou ao Brasil dois anos depois, já com o rótulo de best-seller. Foram mais de 1 milhão e 600 mil exemplares vendidos no país com direito a edições ilustradas e em áudio.
Levado às telas pelo diretor alemão Marc Forster (“A Última Ceia”, “Em Busca da Terra do Nunca” e “Mais Estranho que a Ficção”), a versão cinematográfica chega aos cinemas brasileiros nessa sexta-feira depois de ter concorrido sem sucesso aos Globos de Ouro de melhor filme em língua estrangeira e melhor trilha sonora (Alberto Iglesias). O esperado é que o filme repita na bilheteria o sucesso editorial, porém as fraquezas do romance possam comprometer a carreira do longa.
A história gira em torno de Amir, interpretado pelo ator escocês Khalid abdalla (“Vôo United 93”), médico e escritor afegão que recebe uma ligação de um antigo amigo e embarca numa viagem de volta a sua terra natal – o Afeganistão – para acertar contas com o passado. Sim, é um melodrama, recheado de pinceladas sociais e históricas, como a invasão soviética ao Afeganistão e a ascensão do regime Talibã no país.
Mas o que guia a estrutura do livro e do filme é mesmo a trajetória de expiação da culpa de Amir por um ato vão cometido na infância. Aqui, o elo entre “O Caçador de Pipas” e outra adaptação cinematográfica da safra do Oscar é evidente. “Desejo e Reparação” também segue o caminho da tentativa de reparação de um erro do passado. Amir fora criado junto com um menino de uma etnia perseguida e excluída no Afeganistão – os Hazara. A diferença entre o dois garotos e o ciúme que Amir tinha do pai, são levados ao ponto máximo em uma tragédia que marca a vida dos amigos e os separam para sempre.
O filme é falado em Dari, uma das duas principais línguas falada no Afeganistão, mas isso não acarreta verossimilhança nenhuma a mais, apesar de fugir daquele vergonhoso sotaque de filmes em inglês que se passam em países estrangeiros. O elenco infantil é local e enfrentou a ira do governo afegão – há uma polêmica cena de estupro no filme – que já proibiu a importação do filme. Os meninos tiveram que ser levados aos Emirados Árabes pela Paramount (produtora associada).
A adaptação do romance ficou por conta do escritor e roteirista David Benioff (“Tróia”, “A Passagem” de Marc Forster e “A Última Noite” de Spike Lee). Ele manteve a estrutura temporal do livro que começa com Amir já casado e reconhecido por seus livros nos EUA, parte para um flashback da infância do protagonista em seu país de origem e depois fecha com a volta dele ao Afeganistão. Infelizmente, Marc Forster e sua equipe lançam sobre o país invadido pelo EUA um olhar estrangeiro pautado pelo exotismo, o que desperdiça o interesse crescente pelo mundo árabe após os atentados de 11 de Setembro. Quem não leu o livro pode se assustar com o filme e não entender o motivo do sucesso editorial.
O Caçador de Pipas, de Marc Forster 
(The Kite Runner, EUA, 2007)
Com: Khalid Abdalla, Atossa Leoni, Shaun Toub, Zekeria Ebrahimi, Ahmad Khan Mahmidzada, Homayoun Ershadi
Escrito por
Anderson Vitorino
às
14h33