Bom texto, pouca graça

Nos anos 40 no Japão, em tempos de II Guerra Mundial, um escritor e diretor teatral tem que enfrentar a censura para aprovar sua adaptação de Romeu e Julieta. Comédia dramática japonesa de 1940, A Escola do Riso foi exibida no Festival do Rio de 2005 e entrou em cartaz somente agora. Os encontros entre o dramaturgo e o censor (Kôji Yakusho, de Babel) se tornam verdadeiras oficinas de escrita. Com o intuito de evitar com que a peça seja vetada o autor vai reformando o texto de acordo com as observações do oficial. Os atores são excelentes, assim como a direção de arte, mesmo o filme tendo pouquíssimas locações. Falta graça para o filme em que a trilha tenta suprir essa carência, talvez se não houvesse a intenção tão rasgada da comédia, tudo funcionasse melhor e finalmente riríamos mais como o personagem do censor. Ao final, vários pôsteres de peças são exibidos. São fantásticos e ficou a curiosidade de saber se foram criados para o filme ou se são originais. E, claro, é sempre bom poder ir ao Cinesesc!
A Escola do Riso, de Mamoru Hosi  
(Warai no Daigaku, JAP, 2004)
Escrito por
Anderson Vitorino
às
23h11
|
A volta de Capote

A vida do escritor americano Truman (Streckfus) Capote nunca esteve tanto em debate desde seu A Sangue Frio, que quando publicado em 1965 causou verdadeiro celeuma na literatura por inaugurar o “romance de não-ficção”. Em 2006 pudemos ver o ator Philip Seymour Hoffman interpretar o autor no filme Capote (2005) e receber a estatueta do Oscar® pelo trabalho. Está em cartaz, só agora, no Brasil, filme da mesma época e que trata do mesmo tema. Confidencial também tem uma biografia sobre Capote como base e, mais ainda, o livro do próprio autor sobre o múltiplo assassinato de uma família no centro dos EUA e seus algozes.
Impossível, ou muito difícil, não comparar os dois longas-metragens. No primeiro, temos uma interpretação bastante fiel, mas que aproximada da de Toby Jones em Confidencial, se torna sutil e longe da caricatura ou mimetização. No segundo filme a opção é pelo popular, tanto que a estrutura base do roteiro é um programa de depoimentos de amigos próximos a Truman Capote. Superficialmente, e talvez até um pouco grosseiramente, podemos dizer que Capote está mais para um docudrama enquanto Confidencial está para um programa vespertino de auditório. Independentemente, ver Confidencial reacendeu em mim a vontade de ler A Sangue Frio e descobrir pelas próprias mãos e olhos o que é esse jornalismo literário. Depois já quero embalar o Música para Camaleões, livro que a mãe dá para o filho em Tudo Sobre Minha Mãe (Almodóvar!) e Travessia de Verão.
Confidencial, de Douglas McGrath 
(Infamous, EUA, 2006)
Escrito por
Anderson Vitorino
às
23h10
|
Coincidências ou não

Depois de estudar cinema na ECA (USP) e realizar diversos curtas-metragens que experimentavam linguagem e narrativa (Palíndromo, A Escada), o cineasta carioca Philippe Barcinski lança seu primeiro longa-metragem. O diretor demonstrou criatividade e consistência narrativa no formato curto e seus filmes viajaram o mundo por festivais. Faltava provar se ele conseguiria contar uma história com a mesma inventividade e coesão em mais de 75 minutos. Ele conseguiu!
Phillipe escreveu diversas versões para o roteiro de Não Por Acaso, juntamente com sua esposa e colaboradora Fabiana Werneck Barcinski e Eugênio Puppo. O roteiro passou por consultores e pela oficina do Festival de Sundance (EUA). O resultado é um roteiro magnífico, engenhoso sem exacerbar suas artimanhas. A técnica de alternar o foco me fez lembrar de Zodíaco, que faz isso com os personagens. Não Por Acaso acompanha duas histórias, dois núcleos dramáticos que se tocam e que têm na cidade de São Paulo o seu cenário. Aliás, é impossível pensar em Não Por Acaso sem falar em São Paulo. Nunca vi a cidade filmada dessa forma, como um organismo vivo, quebra-cabeça inteligente, pulsante.
Ainda sobre o roteiro ressalto os diálogos, espontâneos, naturalistas, cheios de silêncios. As histórias se desenrolam a partir do “embate” entre personagens estranhos entre si, que são colocados frente a frente por uma fatalidade: um acidente de carro. Mas as coincidências são colocadas em xeque pelo título do filme, não é verdade? Quanto conseguimos controlar da nossa própria vida?
Também gostei muito da dupla de atores masculinos (Rodrigo Santoro e Leonardo Medeiros) que emprestam sensibilidade e profundidade para seus personagens e da trilha sonora. Não percam por nada! Um dos melhores do ano!
Não Por Acaso, de Philippe Barcinski    
(Idem, BRA, 2007)
Veja o trailer do filme!
Escrito por
Anderson Vitorino
às
22h58
|
Um filme sobre serial killers

O filme fantasiado de não-filme de serial killer é um filme longo (158´), bom, mas longo, sobre serial killer e com bons atores. O diretor David Fincher (Seven e Clube da Luta) deu ao ator Mark Ruffalo a chance de realizar o melhor trabalho de sua carreira até o momento. Zodíaco é baseado no livro homônimo de Robert Graysmith, cartunista de um jornal que se envereda pelos caminhos tortuosos e obsessivos de uma investigação. No filme Graysmith é interpretado por Jake Gyllenhaal. Durante a primeira hora do filme somos apresentados aos crimes do assassino serial, auto-intitulado Zodíaco, que gosta de brincar de gato e rato com a polícia através de jornais importantes da região. A segunda parte do filme, em que a compulsão por descobrir o assassino toma conta dos “personagens”, é bem mais interessante e aqui sim, nem importa tanto quem é o famigerado Zodíaco.
Zodíaco, de David Fincher  
(Zodiac, EUA, 2007)
Escrito por
Anderson Vitorino
às
00h24
|
Um filme de monstro, e só

O filme figurou entre os 10+ de 2006 da revista francesa Cahiers du cinéma e aí pronto: entrou automaticamente para lista de cinéfilos pelo mundo, ganhou diversas estrelinhas de críticos, e por aí vai. E o filme? Fui ver, numa sessão tenebrosa no Cinemark do Shopping tatuapé com adolescentes que comentaram e gritaram todo o tempo, e como sempre, me arrependi de ter ido a um Cinemark, mas isso é outra história. O Hospedeiro tem sua marca de fotografia inventiva, ou ao menos original, e em alguns momentos captura sim a platéia com o seu monstro aquático e personagens carismáticos. Mas é isso. Não tem nada de mistura genial (a palavra se desgastou muito) de gêneros. O filme é na verdade um pastiche e seu fundo sócio-político não se sustenta para além de uma possível citação da realidade contemporânea. Outro filme do diretor é o ótimo Memórias de um Assassino.
O Hospedeiro, de Boon Joon-ho 
(Gwoemul, CRS, 2006)
Escrito por
Anderson Vitorino
às
00h20
|
A Pedra do Reino estréia na Globo no dia 12 e vai até sábado, dia 16 de junho. A direção é de Luiz Fernando Carvalho (Hoje é Dia de Maria, Os Maias, Lavoura Arcaica).
Procuro um diálogo entre os que sabem e os que não sabem; no qual aquilo que para o homem de cultura média é seguro torne-se também patrimônio do homem comum.
LUIZ FERNANDO CARVALHO, cineasta
Escrito por
Anderson Vitorino
às
10h58
|
|