O inferno é o inferno

Assisti ao filme Inferno, do bósnio Danis Tanovic (Terra de Ninguém), numa sessão gratuita da Mostra Internacional em São Paulo de 2005, na FAAP. Estava de férias do trabalho e foi a primeira vez que pude aproveitar mais a maratona de filmes que, talvez, nunca mais passarão por aqui.
Antes, ou depois, da sessão, já não me lembro mais, o diretor e o produtor do filme falaram sobre a realização do projeto. O filme é parte da trilogia concebida pelo mestre polonês Krzysztof Kieslowski (Trilogia das Cores e O Decálogo) e seu roteirista Krzysztof Piesiewicz, a partir da trindade religiosa paraíso/inferno/purgatório, imortalizada no clássico A Divina Comédia. Alguns críticos afirmaram que Kieslowski não dirigiu a produção devido a sua morte (por parada cardíaca em 1996), mas antes disso, o diretor já havia anunciado o encerramento de suas atividades nessa função. Ele pensou no novo ciclo de filmes para novos diretores europeus e é isso que vem acontecendo.
Paraíso (2002), com cate Blanchett e Giovanni Ribisi, ficou a cargo do alemão Tom Tykwer (Corra Lola, Corra). Ainda não há informações sobre a produção de Purgatório.
No filme de Danis Tanovic não importa muito se o inferno está em nós mesmo ou nos outros (discussão fomentada por críticas recentes), o cerne da questão é a forma como lidamos com “traumas” do passado. No caso, três irmãs carregam o peso de terem vivenciado a prisão e o suicídio do pai nos anos 80. A desestabilização dos laços familiares afeta a vida pessoal de cada uma das mulheres da família.
Tanovic consegue se aproximar muito mais do universo de Kieslowski, em comparação com Tom Tykwer, mas essa aproximação não soa de todo natural. É claro que estamos diante de uma idéia e do universo de dissecação humana do mestre polonês, mas cabia no projeto mais doses de pessoalidade. O trabalho com a fotografia – cores, luz, enquadramentos inusitados e planos longos – remete à filmografia de Kieslowski que, além da peculiar direção de atores, explorava as possibilidades da luz no cinema para comunicar o interior de seus personagens. Em Inferno temos a sensação de reprodução, o que não é totalmente negativo.
Gostei muito da abertura caleidoscópica em que uma ave deposita seu ovo em ninho alheio para que o futuro cuco seja chocado enquanto a prole original é destruída.
Inferno, de Danis Tanovic 

(L’Enfer, FRA/ITA/BEL/JAP, 2005)
Com: Emmanuelle Béart, Karin Viard, Marie Gillain
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Escrito por
Anderson Vitorino
às
08h43