“Não preciso de sorte. Eu tenho talento!”

Faz tempo que não escrevo sobre um filme no calor da emoção, quero dizer, logo depois de tê-lo visto. E sim, essa crítica, análise, ou o que quer que seja, será mais pessoal. Saí mais cedo da aula de lingüística para ver o documentário que perdi, por opção, leia-se cansaço, na sexta-feira passada.
Adeus, América foi o filme de abertura do 12º Festival Internacional de Documentários em São Paulo e teve exibição extra na noite passada (28/3). Durante 80 minutos estive diante de um homem radiante, aos 90 e poucos anos, e que temia a idéia de perder sua memória para a velhice. O ator americano Al Lewis (1910 – 2006) ficou famoso ao interpretar o avô na série cômica dos anos 60, Os Monstros.
Assisti a um ou outro episódio da série e confesso que ela não faz parte do meu imaginário, nem das minhas lembranças. Fui ver o filme por curiosidade e indicação de amigos. Fiquei simplesmente encantado pelo cara! Al Lewis senta-se para ser maquiado em um camarim, em breve mais uma aparição do vovô engraçado, com cara de defunto. O ator começa a contar suas memórias para o maquiador e para a câmera e o filme, dirigido pelo espanhol Sérgio Oksman, compreende bem que as imagens e os sons são fugidios, como nossa memória!
Enquanto o vovô se prepara para divertir, ou assustar pessoas, somos envolvidos por histórias fantásticas, contadas com uma desenvoltura e força digna de nossos contadores mais ilustres. A influência da mãe, morta quando Lewis tinha 12 anos, o medo da velhice e suas conseqüências implacáveis, o trauma da guerra e o absurdo de políticas censoras dos Estados Unidos.
É raro ver tamanha lucidez em uma pessoa só. Numa seqüência em especial, Lewis está em campanha para se candidatar a governador por um partido ambientalista e um homem o deseja boa sorte. Prontamente ele responde: “Não preciso de sorte. Eu tenho talento.” E isso era a mais pura verdade. Talento para divertir, para contar casos, para criticar o governo e suas guerras infundadas, para ser um bom marido, pacifista, cronista de rádio e ainda para ser humano, plenamente. O ator morreu de causas naturais em 2006, cheio de vida e lucidez.
Adeus, América, de Sérgio Oksman 


(Goodbye, America, ESP, 2006)
PS: Hoje será exibido em sessão extra, no Cinesesc em São Paulo às 23h, o mais recente documentário de João Moreira Salles, Santiago.
Escrito por
Anderson Vitorino
às
01h05