O cinema pop impressionista de Sofia Coppola

Sofia Coppola consegue mais uma vez ser extremamente pessoal, sem ser fechada demais em si, e ao mesmo tempo dialogar com o seu tempo. A Maria Antonieta de Sofia é uma pessoa real, uma adolescente, perdida e encantada por um mundo novo. Ela foi, a princípio, refém de uma monarquia semi-morta, mas resolveu se entregar, já que não conhecia outra saída, e se torna a rainha "fútil" da França, vítima e protagonista de boatos e escândalos! Como nos outros filmes da diretora, desde seu curta Lick the Star (assista no You Tube!), a protagonista é uma jovem que tenta descobrir seu lugar no mundo.
Afastando-se de um fácil e perigoso “realismo”, o cinema de Sofia se aproxima muito mais do movimento impressionista francês: jogos de imagens tentam transpor o estado de alma e emoções de personagens naturalmente fotogênicos. Os movimentos de câmera são verdadeiras pinceladas soltas, iluminadas por uma luz fugaz, que repudia os tons sombrios. Além disso, o impressionismo também se expressa pelo subjetivismo: para Sofia Coppola interessam muito mais as suas impressões pessoais.
O figurino de Milena Canonero, agraciada com o Oscar®, é só um dos merecidos reconhecimentos: Kirsten Dunst está perfeita em sua interpretação distanciada e levemente afetada, a direção de arte é detalhista e sublime (viva o All-star!) e a trilha sonora reforça a idéia impressionista: os sons são como cores e evitam a precisão. Músicas de New Order, Strokes e Siouxsie and the Banshees embalam as descobertas e as extravagâncias de quase duas décadas da vida da rainha!
Maria Antonieta, de Sofia Coppola   
(Marie Antoinette, JAP/FRA/EUA, 2006)
Com: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Marianne Faithfull, Steve Coogan, Asia Argento
Escrito por
Anderson Vitorino
às
17h27
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O olho, a bunda e o cheiro do ralo

Não foi nada fácil para o diretor Heitor Dhalia realizar o seu segundo longa-metragem. Em primeiro lugar devido ao “fracasso convencionado” de seu filme de estréia Nina, inspirado em Crime e Castigo, roteirizado por Marçal Aquino. Digo “fracasso convencionado” porque há uma predisposição por aí de ouvir uma opinião, ou crítica, e sair repetindo-a indiscriminadamente. Nina não teve uma bilheteria nada expressiva para a lógica de mercado cinematográfico e foi considerado por parte da crítica como uma direção “pesada”. Acredito também que o filme tenha ficado mais na idéia e na intenção do que em sua concretização, mas há ali uma tentativa louvável de comunicar um universo, uma concepção de mundo. O diretor também filmou um curta-metragem (Conceição) que é possível ver no site Porta Curtas.
Em segundo lugar, nas dificuldades contornadas por Dhalia e sua equipe, houve a rejeição ao filme em si, ou melhor, ao livro e ao universo nos quais o filme se baseia. Adaptar O Cheiro do Ralo, primeiro romance do quadrinista Lourenço Mutarelli, comparado ao norte-americano Robert Crumb, não era uma “boa idéia” para vários investidores que recuaram. Resultado: o filme foi realizado com R$ 600.000,00, ganhou vários prêmios nacionais e segue em carreira internacional após ser exibido no Festival de Sundance.
“O poder é afrodisíaco. O cheiro me dá poder. O cheiro e o olho.”
O personagem principal interpretado brilhantemente por Selton Mello, também produtor do filme, é um escroto, um canalha, e tem consciência disso. Lourenço, nome do autor doado ao protagonista na adaptação escrita novamente por Marçal Aquino, é dono de um depósito de objetos usados e quase todos sem a mínima função prática a não ser peça fundamental do jogo de poder travado entre o comprador e a pessoa que oferece o objeto. Lourenço sente prazer nesse controle exercido sobre quem está precisando de dinheiro e se desfaz de algo pessoal para conseguir. É, ele é bem canalha mesmo.
O romance de Mutarelli é cheio de símbolos que a psicanálise vai ter imenso prazer em investigar. O protagonista freqüenta uma lanchonete diariamente e eis que se depara com um objeto de desejo fulminante: a bunda da garçonete! Lourenço passa a cobiçar a parte específica da mulher até perceber que ela é uma pessoa inteira, não só uma bunda. E assim o personagem vai precisar se humanizar caso queira conquistar o objeto desejado, que vem junto com a mulher. Mas não é bem assim que a história se desenrola.
Outros símbolos que aparecem ao lado da bunda, são: o olho de vidro, adquirido como quinquilharia e transformado em restos mortais paternos numa construção maluca da cabeça do protagonista, e, claro, o ralo e seu cheiro inconveniente. A isso se soma a galeria de personagens estranhos que batem à porta de Lourenço para vender algo, sem imaginar o que vão enfrentar durante a negociação. Atores talentosos, pouco conhecidos e corajosos compõem o elenco. Destaco Sílvia Lourenço, como a junkie, que se vê nas mãos mesquinhas de Lourenço para conseguir dinheiro. A atriz vem do teatro e estreou de forma elogiável no cinema com Contra Todos. O autor, Lourenço Mutarelli, também participa do elenco, como o segurança do depósito.
“O cheiro me persegue.”
O Cheiro do Ralo é um filme sardônico e seu protagonista, talvez por ser interpretado pelo carismático Selton Mello, não causa repulsa apesar de seus valores morais duvidosos. A fotografia é bastante original, no sentido em que não reproduz uma “gramática” do campo/contracampo e dá tempo para que a ação se desenvolva. Ao lado disso vem a direção de arte cuidadosa, que dá vida, ou a tira, do galpão com cara de abandonado onde Lourenço exerce sua vil profissão. Ali, objetos de cena e a variação do tom pastel dão uma cara de anos 70. O próprio protagonista usa roupas e óculos anacrônicos e, na verdade, a concepção do figurino passa por aí.
O filme estréia hoje e está claro que o próximo, ou próximos, filmes de Heitor Dhalia estão garantidos! A reação da platéia, que ri em vários momentos desconcertantes, chegou a assustar diretor e o ator – Heitor Dhalia disse após uma sessão chegou a pensar que o mundo está pior do que imaginava! Mas o susto passou.
O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia    (BRA, 2006) Com: Selton Mello, Paula Braun, Lourenço Mutarelli, Sílvia Lourenço
Clique aqui para ver o site oficial do filme.
Escrito por
Anderson Vitorino
às
15h47
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Utilidade Pública: 12º Festival Internacional de Documentários

Principal evento dedicado à cultura do documentário na América Latina, fundado e dirigido por Amir Labaki, o É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários realiza sua 12a. edição com 141 títulos, a maior em número de exibições. A principal novidade do programa é o estabelecimento de uma competição internacional de curtas-metragens.
O festival apresenta, assim, duas competições internacionais (14 longas e 10 curtas) e duas competições brasileiras (7 longas/médias e 8 curtas). A retrospectiva internacional celebra a obra como documentarista do cineasta polonês Krszystof Kieslowski. Uma homenagem especial destaca a contribuição do documentarista Linduarte Noronha e a aurora da marcante escola documental paraibana dos anos 1960.
As mostras informativas incluem os ciclos O Estado das Coisas, Horizonte e Foco Latino- Americano, além de programas especiais, uma homenagem aos 20 anos do Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, uma mostra dos curtas experimentais do jurado norte-americano Jay Rosemblatt e um ciclo com destaques dos festivais franceses de documentários de 2006.
Ética é o tema central da 7ª Conferência Internacional do Documentário, que será realizada em São Paulo, no Itaú Cultural de 28 a 30 de março.
São Paulo: de 22 de março a 1 de abril
Rio de Janeiro: de 23 de março a 1 de abril
Brasília: de 3 a 15 de abril
Campinas: de 9 a 15 de abril
Porto Alegre: de 23 a 29 de abril
Escrito por
Anderson Vitorino
às
13h10
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