
Hércules, ou Herácles, era um semideus grego que teve sua vida marcada por perseguições e provações desde o seu nascimento. Qualquer semelhança com a vida dura do "herói" do novo filme de Ricardo Elias não é mera coincidência. O filme tem a base de sua estrutura nas famosas tarefas que o semideus grego teve que executar: os 12 trabalhos. Um dia na vida de Herácles, ex-interno da Febem, que apoiado pelo primo Jonas passa por difíceis momentos na pele de um motoboy na cidade de São Paulo.
Para o garoto, com um nome grego, a cidade se impõe como o maior desafio, além de ter que enfrentar os desvirtuamentos morais dos outros, fortalecendo assim seus próprios princípios para se adaptar ao mercado de trabalho. Herácles esteve envolvido com traficantes antes de ir para a Febem.
Ricardo Elias aprimorou a interpretação dos atores nesse seu segundo filme, criticada em De Passagem e acusada de artificialidade. Mas ao mesmo tempo esvaziou seu filme de uma certa pureza e ingenuidade que havia no primeiro longa. Os diálogos estão cheios das gírias e expressões usadas por motoboys, que cruzam a metrópole diariamente e isso demonstra a riqueza do trabalho de direção e preparação dos atores. Flávio Bauraqui , o primo Jonas, dá muita vivacidade ao filme em contraponto a uma introversão de Herácles, que revela ao longo do filme seu talento como desenhista.
Os 12 Trabalhos é sem dúvida um filme mais maduro, cinematográfica e ideologicamente dizendo. Há um ponto de vista e há também um rigor na construção da história, com elementos bem definidos e que se inserem no desenvolvimento do roteiro. Narrações em off do protagonista servem de esclarecimento quanto aos outros personagens, no presente e possíveis futuros. Talvez, tenha faltado ousadia numa cena em que uma história em quadrinhos criada por Herácles é narrada. A câmera se coloca de forma participativa, dentro da ação, até mesmo porque a movimentação das motos pelo trânsito paulistano assim o exige.
Diferentemente do mito de Hércules, que "vence" os seus 12 trabalhos e conquista assim o respeito de sua maior adversária e um lugar seguro e privilegiado para viver, o Herácles de Elias não acredita muito no trabalho de motoboy como um prêmio a ser perseguido. Há aí um certo pessimismo, ou desconfiança, do diretor e roteirista frente às oportunidades oferecidas aos jovens brasileiros da periferia. O que não pode-se negar é o talento demonstrado por Ricardo Elias, tanto na escolha de seu tema e universo, quanto na forma de retratá-lo, sem paternalismo ou preconceitos.
Os 12 Trabalhos, de Ricardo Elias 

(Idem, BRA, 2006)
Com: Sidney Santiago, Flávio Bauraqui, Francisca Queiroz, Vanessa Giácomo
Site oficial do filme