A lei é igual para todos?
O
Crocodilo, de Nanni Moretti   
Um produtor de cinema (quase)
falido resolve filmar, e assim fazer várias denúncias, parte da biografia
política recente do premiê italiano Sílvio Berlusconi. Nanni Moretti é, de certa
forma, herdeiro do cinema político italiano dos anos 60 e 70 e ficou conhecido
como um dos principais opositores ao governo de Berlusconi. O Crocodilo, como é
chamado o político em questão, é o nome do filme dentro do filme, usado para
apresentar a dificuldade de fazer cinema e ainda mais um cinema crítico.
Há o lado obviamente pessoal na figura do produtor que se relaciona com
a família em processo de separação da mulher, mas a pessoalidade do filme está
também no ataque aberto e direto ao político populista e de direita, dono de
rede de televisão e time de futebol. Nanni Moretti aparece como ator somente no
final do filme, como o próprio crocodilo. Na Itália, muitos consideraram
importante o papel do filme para a derrota de Berlusconi nas eleições desse ano.
O longa ganhou o pr6emio da cidade de Roma no último Festival de Cannes e
estréia no Brasil em 24 de novembro. Sem dúvida um dos melhores filmes da 30ª
Mostra! Bye Bye Berlusconi, Jan Henrik
Stahlberg 
Filme alemão que tem exatamente a mesma premissa de O
Crocodilo. Aqui o tom é bem mais satírico e se foca mais nisso do que nas
denúncias ao governo de Berlusconi. É interessante para ver como é explorada a
figura populista e histriônica do político. A Audiência Vai Começar, de
Vincenzo Marra 
Documentário italiano que segue, basicamente, três
personagens (um juiz, sua assistente e um advogado criminalista) num esforço
para cobrir o que envolveu o caso Camorra, a máfia de Nápoles. Nas salas das
sessões de justiça na Itália há uma inscrição (A lei é igual para todos) que
pode ser vista nos três filmes aqui relacionados. Nesse filme, em especial, o
tom tende a ser partidário com o conservadorismo do juiz e do advogado de
defesa. Quem apresenta mais transparência e se esforça para levar a inscrição à
prática é a assistente do juiz, claramente marginalizada naquele universo. É
assustador o discurso machista do juiz durante um lanche com outros
funcionários, mas ainda mais assustador era ouvir várias pessoas rindo na sala
de cinema. As semelhanças entre Brasil e Itália vão além do amor pelo
futebol!
Escrito por
Anderson Vitorino
às
17h55
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Anche Libero Va Bene, de Kim Rossi
Stuart     Estréia na direção do ator italiano Kim Rossi Stuart ( As
Chaves de Casa). Drama intenso de uma família abandonada pela mãe, cujo pai,
interpretado pelo diretor, carrega o peso de trabalhar, cuidar da casa, dos
filhos e de si mesmo. São exigidas dos filhos certas responsabilidades, já que
não têm a mãe presente e esse tema não é discutido abertamente. A família vive
fechada em si, principalmente por causa do recrudescimento da abertura a novos
relacionamentos por parte do pai, que sofre e falha ao tentar suprir todas as
necessidades dos fihos. O ponto de vista predominante, principalmente
após a conturbada volta da mãe, é o do jovem filho, que vive sobressaltado,
oprimido pelo medo de um novo abandono. Talvez essa sensação de estar numa corda
bamba explique um pouco das cenas angustiantes do menino em cima do telhado do
prédio. A reaproximação entre mãe e filho é lenta e dolorosa para ambos. A mãe
não está nada bem e parece tentar muito se adaptar naquele esquema de família,
mas ao mesmo tempo sabe que não será capaz. O filme é forte, beira um
pouco o exagero, mas tem aí seu principal recurso dramático: a forma como os
personagens sentem e se relacionam. Há momentos de extrema doçura no cotidiano
entre pai e filhos assim como há instantes de sofrimento intenso. Ótima estréia
de Kim Rossi Stuart, premiada no último Festival de Cannes.
Escrito por
Anderson Vitorino
às
13h20
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Flandres, de Bruno
Dumont  
 Não há sinopse fácil
para descrever esse filme que ganhou o prêmio do júri no último Festival de
Cannes. Foi o primeiro filme de Bruno Dumont que vi, confesso sem pudor, e já li
críticas duras a respeito de seu cinema. O que notei logo de princípio é que o
filme seria essencialmente físico e construído por ações e olhares. Estão lá os
personagens, adultos, não se vê criança por ali, no meio rural da região dos
Flandres, província belga. Protagonistas principais: André e Barbe, amigos desde
a infância, que esporadicamente transam no meio da tarde. Dumont evita
diálogos, explicações, sentimentos, psicologismos e o frio transforma o lugar na
paisagem perfeita para essa ambientação. Parece que ali se vive uma rotina
entediante, mas com certa tranqüilidade. A guerra surge como uma oportunidade de
algo melhor. O que? Dinheiro? É estranho, porque os moradores, pouquíssimos, nem
parecem usar o dinheiro onde moram. Antes de partir para a guerra com os outros
homens da região, André parece, e digo parece porque nada confirma a hipótese,
se enciumar com a presença de um “namorado” na vida de Barbe. Há uma leve
sugestão de um triângulo amoroso. Na guerra, num provável Oriente Médio,
os homens de Flandres, broncos, no sentido de rústicos, praticam atrocidades com
locais. A guerra nesse filme é curiosa, porque não é informado ao público sua
localização, suas razões, quem luta de que lado, e mesmo assim vários são
mortos, mulheres violentadas. Uma guerra sem motivos. Há razões para a
guerra? Na ausência dos homens, Barbe se descobre grávida do namorado que
partiu em combate. Ela se decide por um aborto, tudo sem muita discussão ou
crise, pelo menos nada é dito. Depois vamos ver que ela sofre de surtos
psicológicos: “primeiro a mãe, depois a filha”, diz um pai que não havia
aparecido antes. André volta, como único sobrevivente, encontra a amiga em crise
e é acusado por ela de deslealdade e culpa pela morte dos outros. Ele amarga
responsabilidade e esse parece ser o momento em que os personagens se conectam.
Flandres é cheio de vazios narrativos, que a meu ver, exigem
preenchimento por parte do espectador. Claro que isso não é uma característica
negativa, mas o filme se enfraquece justamente aí. Senti falta de um vigor
emocional maior ou um ponto de vista mais claro, como por exemplo, nos filmes
dos irmãos Dardenne ( O Filho, A Criança).
Escrito por
Anderson Vitorino
às
08h33
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A Scanner Darkly, de Richard
Linklater     Seguindo
a mesma técnica de animação (pintura e animação após a captura com atores reais)
utilizada em Waking Life, o diretor Richard Linklater visita a obra de Philip K.
Dick, autor de, entre outros, Blade Runner. A abertura indica que a ação se
passa num futuro próximo, logo a realidade imaginada não está tão longe assim.
Os EUA vivem diariamente rodeados por câmeras, agentes de segurança e pela
teoria da conspiração, agora insuflada pelo consumo indiscriminado de uma droga
química, a substância D, que além de causar alucinações e paranóia, ainda divide
a personalidade, criando espécie de alter-egos. Nesse ponto, o tipo de animação
serviu bem para dar vida à obra inspirada nas experiências pessoais do autor com
as drogas. Linklater é reconhecido por sua peculiar direção de atores,
que contribuem, inclusive, com textos próprios para o roteiro. Os personagens
falam, falam e falam. O drama principal gira em torno do personagem de Keanu
Reeves, Fred, um tipo de agente “secreto” do governo, que é incumbido de
investigar seu próprio alter-ego, o traficante Bob. Fred está deliberadamente
viciado na tal droga D e tem que lidar com suas alucinações e sua namorada que
não suporta contato físico – paranóias já percebidas no mundo há um tempo. O
grande atrativo do filme está na animação e nas atuações histriônicas de Robert
Downey Jr. e Woody Harrelson.
Escrito por
Anderson Vitorino
às
12h57
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Uma vida lôka!
Os 12 Trabalhos, de Ricardo Elias
 

Hércules, ou
Herácles, era um semideus grego que teve sua vida marcada por perseguições e
provações desde o seu nascimento. Qualquer semelhança com a vida dura do "herói"
do novo filme de Ricardo Elias não é mera coincidência. O filme tem sua
estrutura nas famosas tarefas que o semideus grego teve que executar: os 12
trabalhos. Um dia na vida de Herácles, ex-interno da Febem, que apoiado pelo
primo Jonas passa por difíceis momentos na pele de um motoboy na cidade de São
Paulo.
Para o garoto, com um nome grego, a cidade se impõe como o maior
desafio, além de ter que enfrentar os desvirtuamentos morais dos outros,
fortalecendo assim seus próprios princípios para se adaptar ao mercado de
trabalho. Herácles estava envolvido com traficantes antes de ir para a Febem.
Ricardo Elias aprimorou a interpretação dos atores nesse seu segundo
filme, criticada em De Passagem e acusada de artificialidade. Mas ao
mesmo tempo esvaziou seu filme de uma certa pureza e ingenuidade que havia no
primeiro longa. Os diálogos estão cheios das gírias e expressões usadas por
motoboys, que cruzam a metrópole diariamente. Flávio Bauraqui , o primo Jonas,
dá muita vivacidade ao filme em contraponto a uma introversão de Herácles, que
revela ao longo do filme seu talento como desenhista.
Os 12 Trabalhos
é sem dúvida um filme mais maduro, cinematográfica e ideologicamente
falando. Há um ponto de vista e há também um rigor na construção da história,
com elementos bem definidos e que se inserem no desenvolvimento do roteiro.
Narrações em off do protagonista servem de esclarecimento quanto aos outros
personagens, no presente e possíveis futuros. Talvez, tenha faltado ousadia numa
cena em que uma história em quadrinhos criada por Herácles é narrada. A câmera
se coloca de forma participativa dentro da ação, até mesmo porque a movimentação
das motos pelo trânsito paulistano assim o exija.
Diferentemente do mito
de Hércules, que "vence" os seus 12 trabalhos e conquista assim o respeito de
sua maior adversária e um lugar seguro e privilegiado para viver, o Herácles de
Elias não acredita muito no trabalho de motoboy como um prêmio a ser perseguido.
Há aí um pessimismo do diretor e roteirista frente às oportunidades oferecidas
aos jovens brasileiros da periferia?
Escrito por
Anderson Vitorino
às
00h28
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Começou a maratona de filmes!
19.10.2006 - Abertura
Foi bem emocionante o "discurso" do Cakoff e da Renata, pais da Mostra, no auditório do Ibirapuera. Nesse ano tudo tem um sabor especial: 30 anos de Mostra! O filme de abertura foi Os Estados Unidos Contra John Lennon, de David Leaf e John Scheinfeld. O documentário cobre em média 10 anos, de 1966 a 1976, da vida de Lennon, praticamente desde quando conheceu Yoko até seu incontornável assassinato. Nesse meio tempo Lennon deu um novo rumo na carreira dos Beatles, mais rock, mais atitude, até o fim do grupo. A carreira solo ao lado da esposa e companheira Yoko caminhou para além da música. Imagens de arquivo mais depoimentos de conhecidos e estudiosos pretendem mostrar como Lennon se envolveu na defesa da paz mundial, e por decorrência lógica, anti-Nixon! A estrutura do filme, claro, é bem menor que a figura pessoal e artística do Beatle, mas isso em nenhum momento faz o interesse diminuir. Anos de resistência via música, depoimentos, atitudes. Os EUA, e o mundo, passavam por transformações sociais, políticas, culturais: mulheres e negros reclamam mais participação, igualdade, muitos querem o fim da guerra do Vietnã, grupos musicais e outros artistas vêem na contestação uma grande inspiração para a arte. É difícil não pensar na atitude de Lennon/Yoko pela paz como um modelo a seguir e, além disso, parece que estamos vivendo num mundo bem parecido, apesar de várias mudanças (pelo menos é o que dizem!): guerras e intolerância religiosa, racial, social.O título? Acreditem: tentaram deportar John Lennon dos EUA, além de outras coisas, como perseguição. "War is over, if you want to".  Na abertura também foi exibido o curta Eu Quero Ser Piloto do diretor Diego Quemada-Diez, operador de câmera em "O Jardineiro Fiel". O filme de 12 minutos é estruturado por um poema escrito pelo diretor, baseado em depoimentos e histórias de jovens quenianos, que vivem numa miséria assombrosa e convivem com doenças, como a AIDS. Um garoto narra o curta em off, lendo o poema, enquanto as imagens nos levam a acompanhar o menino em sua rotina, enfrentando as mazelas diárias. A beleza da fotografia e o apuro técnico em geral são inegáveis, porém o filme não ultrapassa os clichês de uma denúncia que também cosmetiza o que repudia. Enfim, precisamos fazer algo pelas crianças da África, do México, da Ásia, do Brasil, mas após ver o filme, e quem sabe até chorar, o que fazer?
Escrito por
Anderson Vitorino
às
00h26
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